Chuva-forte_22

A Chuva

Era noite e a chuva não parava de cair. As gotas densas caiam com força sobre a frágil telha do pequeno ponto de ônibus. O vento forte empurrava toda a chuva em direção das pessoas que se abrigavam ali. O local estava lotado e ônibus estava com 1 hora de atraso. Toda vez que chovia era assim. Naquele ponto de ônibus lotado de gente tentando inutilmente se abrigar da chuva, tinha uma garota. Uma garota que não estava se importando com a confusão de pessoas. Uma garota toda encharcada, de braços cruzados e tremendo de frio. Seus olhos estavam vermelhos, tinha lágrimas em seus olhos, parecia estar desnorteada.

Ela estava pensando nas coisas que aconteceram na noite anterior. Dizia para si, que não deveria ter ido na casa do namorado. Que não deveria ter entrado naquele quarto com ele. Que não devia ter se entregado ao homem, que ela achava que podia confiar. As consequências da noite anterior, vieram à tona nesse dia. Um vídeo dela com o namorado foi parar na internet. O namorado mandou o vídeo para os amigos, que acabaram espalhando para outras pessoas. Na escola, ela foi humilhada. Ela ouvia coisas que nunca imaginou ouvir de ninguém. Vadia! Piranha! Puta! Era o que escutava. Cada xingamento, lhe era atingido como uma facada no peito. Foi difícil sair da escola, sem ouvir os xingamentos dos alunos.  Ela chegou a se esconder em uma loja, para esperar os julgadores irem embora. O vendedor da loja, um homem bom, ficara com pena. Ele a acompanhou até o ponto de ônibus, mas como não podia deixar a loja sozinha, foi embora. Por sua sorte, os alunos já tinham ido para suas casas, mas o ponto de ônibus estava cheio e a chuva caia com força. Ela estava pensando na reação dos pais. Era questão de horas para que os pais dela descobrirem o que ocorreu, isso se já não tivessem descoberto. Ela sabia que seus pais não iriam dar forças para ela tentar superar o ocorrido. Ela seria a desonra da família, a depravada, cujo os pais iriam desprezar para o resto da vida.  Se perguntava o porquê daquilo estar acontecendo com ela, pois nunca fizera nada de ruim pra ninguém. Ela sentia culpa.
Os carros continuavam passando em alta velocidade. Eles amavam transformar aquela rua em uma pista de corrida. Ela continuava em silêncio. Olhando para a rua. Atenta aos carros e aos ônibus de linha direta. Todos estavam reclamando do atraso do ônibus. Todos estavam alheios ao que ela estava sentindo. Até aquele momento, ninguém sabia quem ela era ou o que tinha acontecido a ela. Ninguém a viu levantar. Ninguém a viu caminhar lentamente em direção ao ônibus. Só tiveram tempo de escutar o barulho da frenagem em seguida de baque violento. Todos olharam para o chão. Um grito de horror. Uma garota (ou o que restava dela) estava no chão. Seu corpo retorcido de uma forma grotesca. A chuva lavava seu sangue. Todos agora sabiam quem ela era e o que tinha acontecido. Seu corpo jazia ali, naquele chão frio e molhado. Não ouve mais sofrimento, desprezo, xingamentos e humilhações. Tudo se encerrou naquela chuva.

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